Como muitos outros que o tempo pesado e escorregadio dos séculos sepultou, mas que ficaram para sempre, também tu, alquimista, armado de grande paixão e esperança te lançaste na permanente e desassossegada demanda do belo, do novo, do divino…, e consumiste-te numa eternidade de muito dia e muita noite até seres cúmplice íntimo das palavras e lhe sentires a pulsação.
Como nómada sedento de novos horizontes não te prendeste a etiquetas, “clichés”, lugares confortáveis e anestesiantes. Bem pelo contrário. Propuseste-te distribuir as palavras como punhaladas de alegria eterna, como marés de esperança em lava.
Como no esplendor dos grandes dias animaste-te de ideias. Fizeste delas sentidas mensagens, que distribuíste com todos os espíritos inquietos, sedentos de novidade e partilhando contigo o gosto pela procura.
Que recebeste em troca?
Uma grande fatia de dor, que apesar de estar reservada a todos os homens, tu conheceste melhor, por tão grande ousadia. Receosos que o espírito que te animava fosse contagiante, foi este o preço que a vulgar e numerosa tribo de imitadores, plagiadores e académicos ocos, na sua ira, te debitaram.
Por tudo isso e mais ainda, porque insensato e teimoso, te recusaste a aceitar as regras de todos os tempos, de todas as tiranias, que por mais absurdas e caduca te são apresentadas como o único cenário viável. Desde logo tornou-se bem familiar, ao ponto de lhe sentires o bafo, a raiva, a desilusão.
Mas tu sabes melhor que ninguém que a poesia entrincheira desígnios totalmente opostos a todas as tiranias, a todas as opressões; que a poesia é a total antítese de todo o servilismo.
Quando, insistindo, tentaste explicar todo o prazer do curto-circuito sintagmático, o fluxo tempestuoso das palavras elétricas, inventivas e criadoras, riram-se de ti. Não entenderam. Segundo crês, fingiram nada compreender na sua hipocrisia farisaica. Bem viste que nos olhos deles estava escrito o desprezo que te dispensavam a ti e às tuas palavras. Não desististe, pois estavas convicto de que te podiam jogar na masmorra mais inenarrável. Mas às palavras ninguém as faz prisioneiras.
Apesar de tanto remar em vagas alterosas e fustigantes, continuas a dizer que um dia as trevas húmidas serão expulsas e então não mais será necessário que tu, ou pessoa alguma, tenha de se disfarçar em muralhas de bruma, nem de se refugiar em ilhas de doloroso exílio.
Quando esse tempo futuro se apresentar, essas tristes memorias não serão mais que destroços encalhados nos compêndios de história, que os estudiosos registarão para que a curta memória dos homens não se olvide.
Quando isso acontecer, as grades que cerceiam a liberdade florescerão e não mais serão precisos ficheiros que vigiem a pulsação criativa de qualquer homem…